domingo, 31 de maio de 2009

Eu te peço um verso


Eu te peço um verso e você me vem com muito mais do que te peço.Te dou uma canção e você me vem como quem tem nas mãos esse caminho azul, lindo caminho azul pra mim do não ao sim. Voltas, saltos, abismos, canções cheia de intenções, do sim ao não, carícias, carências, gestos indevidos.O que é que eu faço agora se me falta ar, se tu não pode ser e eu não posso estar?Se me pinto vinho é pra me contentar em ter tua companhia, teu jeito de me amar.Eu te pedi um dia e você me deu o resto da minha vida, brilho, festas, plumas, flashes mas eu fiquei deserta diante das grades abertas, depois virei vento, terra, água e nunca fogo.Signo que não combina com o meu, terra para pés no chão, água para salvação, vento para me levar de ti, fogo para o coração.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Ausência


Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto. No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz. Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado. Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperado Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado. Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face. Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada. Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite. Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi face da noite e ouvi a tua fala amorosa. Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço. E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado. Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos. Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir. E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas. Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz perenizada.



- Vinícius de Moraes



Esse vídeo..
Essa música..
Diz muito sobre mim..
Principalmente o que estou vivendo ultimamente.
,*

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Chegou ao final?



Deixar ir embora. Soltar. Desprender-se.
Ninguém está jogando nesta vida com cartas marcadas, portanto às vezes ganhamos, e às vezes perdemos.
Não espere que devolvam algo, não espere que reconheçam seu esforço, que descubram seu gênio, que entendam seu amor. Pare de ligar sua televisão emocional e assistir sempre ao mesmo programa, que mostra como você sofreu com determinada perda: isso o estará apenas envenenando, e nada mais.
Não há nada mais perigoso que rompimentos amorosos que não são aceitos, promessas de emprego que não têm data marcada para começar, decisões que sempre são adiadas em nome do "momento ideal".
Antes de começar um capítulo novo, é preciso terminar o antigo: diga a si mesmo que o que passou, jamais voltará!
Lembre-se de que houve uma época em que podia viver sem aquilo, sem aquela pessoa - nada é insubstituível, um hábito não é uma necessidade.
Pode parecer óbvio, pode mesmo ser difícil, mas é muito importante.
Encerrando ciclos. Não por causa do orgulho, por incapacidade, ou por soberba, mas porque simplesmente aquilo já não se encaixa mais na sua vida.
Feche a porta, mude o disco, limpe a casa, sacuda a poeira. Deixe de ser quem era, e se transforme em quem é. Torna-te uma pessoa melhor e assegura-te de que sabes bem quem és tu próprio, antes de conheceres alguém e de esperares que ele veja quem tu és..
E lembra-te :

“Tudo o que chega, chega sempre por alguma razão"

Fernando Pessoa

domingo, 17 de maio de 2009

Minha doença.


Você chegou assim.. Como quem nada quer.. E foi invadindo, aos poucos. Foi tomando conta de tudo que é meu aqui dentro. Acontece que eu deixei de alimentar você. Você continua aqui dentro.Se esconde.Insiste em ficar. Mas, eu decidi que você vai morrer. Não me faz mais o bem que fazia. Você ocupa tanto tudo, que sua intensidade está corroendo todo o meu corpo. E dói. Sua presença dói. Você me dói. E me dói tanto.. Tanto, que eu precisava de algo para curar essa dor. Foi então que ele chegou, também como quem nada quer. E mal sabe ele que é o remédio para essa minha dor, essa minha dor de você. O remédio aos poucos vai me curar. Ele já está me fazendo muito bem. Só tenho que tomá-lo na dose certa, nas horas certas. Mas, eu me pergunto: Será que eu quero me curar dessa doença?Será que eu quero me curar de você?

domingo, 10 de maio de 2009


A vida é engraçada. Tem coisas que só o tempo nos esclarece. Eu nunca entendi a história de “amor proibido”. Aliás, entendia, mas nunca aceitei.
- Amor proibido?Que nada!Quando eu encontrar um amor de verdade, eu nunca abrirei mão dele.Por nada, nem por ninguém.
Mas, os dias correm, os anos passam e de repete a gente esbarra na realidade.Num tombo tão forte, que ficamos tontos, fracos.Vamos ao chão no mesmo instante.
Sempre fui de desafiar a vida, meus limites.Sempre querendo desafiar tudo.A morte, as pessoas, a minha capacidade de prosperar, a minha capacidade de amar.. Acho que por nunca acreditar no amor, esse de carne e de alma.Ou talvez por não me sentir apta para tal sentimento.
Já discuti muito sobre o amor, já defendi a forma de amor que as pessoas mais criticam.A de que todo amor é interesse.Você não ama a pessoa, você ama o que ela provoca em você e ela o que você provoca nela.
Mas, na prática, a gente nunca consegue definir.Eu nem chamo de amor, eu chamo de mágica.Amor é uma palavra carregada de expectativas.A mágica não, a gente nunca sabe o que virá, o que tem dentro do pano que cobre os sentimentos.

Sei que aconteceu assim, numas de minhas noitadas.Mais uma noite que desafiei meus limites, meus sentidos, meu tudo.E tava lá, no meio da multidão, mas se destacava de uma forma que só eu enxergava, se destacava para mim, só para mim.Pode ser que tenha chamado a atenção de alguém, mas não como chamou a minha, e tenho certeza que quando me viu, sentiu o mesmo.
Já estava mais para lá do que para cá, com minhas mágoas, dores, e inseguranças afogadas nos copos de cerveja, e mascarada pela embriaguez, vestida de coragem e calçada com prepotência.Fui em sua direção e nunca mais consegui me desviar.
Hoje me sinto mais sua do que de mim mesma.Sou cada poro do seu corpo que se arrepia quando me vê.Você é meu segredo mais oculto, está tão dentro de mim, que te procuro para te mandar embora daqui de dentro e não te acho, você já faz parte de cada pedaço que existe em mim.Eu sou o seu desejo mais profundo, e você é o corte mais profundo que tenho na alma, que dói só em te vê sem poder te ter.Você é saudade reprimida, que sangra ao ver sua partida e grita de dor quando você volta para minha vida.És o meu ego, minha alma.Meu céu, meu inferno, minha calma.Meu tudo, meu nada.
Bani a palavra amor.Consegui. Mas, não consigo banir você.
A nossa magia é proibida. Porém, ao menos nos meus sonhos, a gente pode ser feliz.Nos sonhos, a gente pode virar o mundo de cabeça para baixo.Pena que a gente acorda.Acorda com aquela topada, chamada realidade.


-Just like a star across my sky Just like an angel off the page You have appeared to my life Feel like I'll never be the same Just like a song in my heart Just like oil on my hands....

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Meu coração


Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham. Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível. Este apertava os olhos quando sorria. Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça. Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra.
Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável.
Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água. Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência. Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz. Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável. Meu coração é um traço seco. Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto. Puro artifício, definitivo.
Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada.
Meu coração é um bar de uma única mesa, debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon, contemplado por um único garçom. Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado. Rouco, louco.
Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas. Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera. Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China. No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: "Im too pure for you or anyone". Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas.
Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria. A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês.
Meu coração é uma planta carnívora morta de fome.
Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro, papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso. Acesa, aceso - vasto, vivo: meu coração teu.



Coletânia do texto "CORAÇÃO"- (Pequenas Epifanias, crônicas)- C.F.A.